in portuguese, self-improvement

Tempo de leitura: 7 minutos.

Chappell told me that his first encounter with the idea of deep work was “an emotional moment.”

Exatamente o que senti após ler os primeiros capítulos do livro Deep Work: Rules for Focused Success in a Distracted World escrito por Cal Newport, cuja leitura recomendo vivamente.

Estando a começar um novo desafio profissional é uma oportunidade fantástica para aplicar o conceito que me deixou emocionado.

O trabalho profundo é:

Atividade profissional realizada num estado de extrema concentração, sem distrações, empurrando o potencial cognitivo ao seu limite, de uma forma difícil de replicar, criando novo valor e aumentado as capacidades do praticante.

Os chamados trabalhadores do conhecimento, tipicamente engenheiros de software, cientistas, designers, advogados, arquitetos, entre outros, estão a perder esta capacidade para fazer trabalho concentrado, principalmente devido às ferramentas de rede. Segundo Cal Newport, citando um estudo de 2012 da McKinsey,  o trabalhador do conhecimento normal utiliza cerca de 60% do horário de trabalho semanal em comunicação eletrónica e navegação na Internet, sendo cerca de 30% do tempo dedicado a ler e escrever e-mails.

Este tipo de trabalho superficial:

É pouco exigente em termos cognitivos e passível de ser executado num estado de distração. Tende a não criar muito valor para o mundo e é fácil de replicar.

Cal Newport defende (e demonstra) no seu livro que a capacidade de fazer trabalho profundo é de grande valor para os dias de hoje, sendo essencial para aprender de forma constante e  produzir cada vez melhor e mais rápido.

O que é necessário então fazer para “abraçar a profundidade” e colocar de lado o supérfluo?

Depois de terminar a primeira leitura, necessitei de ler novamente o livro para tomar notas e sistematizar o que fazer para aplicar os ensinamentos. Desse exercício resulta o resumo que se segue.

O que temos que fazer é seguir as quatro “regras” do autor, cada uma com várias estratégias. As assinaladas a amarelo são as que considerei mais relevantes para começar e que irei detalhar mais à frente.

  1. Trabalhar Profundamente
    • Filosofias de trabalho profundo
    • Ritualização
    • Sair da rotina para manter o foco
    • Tirar partido do trabalho em equipa
    • Executar o trabalho como se de um negócio se tratasse
    • Desligar o dia
  2. Abraçar o Tédio
    • Treinar a concentração 
    • Criar prazos mais apertados para aumentar o foco
    • Meditação Produtiva
    • Praticar a Memorização
  3. Abandonar as Redes Sociais
    • Aplicar a lei de Pareto aos hábitos de utilização da Internet
    • Sair das redes sociais
    • Não utilizar a Internet como forma de entretenimento
  4. Drenar o Supérfluo
    • Planear o dia
    • Quantificar a profundidade de cada atividade
    • Orçamento para trabalho supérfluo
    • Terminar o trabalho às cinco e meia
    • Estratégias para usar o e-mail com o menor desperdício possível

As filosofias de trabalho profundo são quatro:

  • Monástica – estar isolado de tudo e de todos dedicado ao trabalho profundo
  • Bi-modal – oscilar entre períodos significativos de trabalho profundo e trabalho supérfluo, tendo como período mínimo 1 dia de trabalho profundo (por exemplo, 4 dias por semana em trabalho profundo e 1 dia em trabalho supérfluo)
  • Rítmica – transformar o trabalho profundo num hábito regular
  • Jornalística – encaixar o trabalho profundo sempre que for possível

Vou começar com a abordagem rítmica. A monástica e bi-modal são demasiado extremas visto que é impossível diariamente não fazer reuniões de ponto de situação, ler e responder a e-mails, etc. A jornalística não se aplica pois vou ter períodos significativos no dia em que posso estar 100% concentrado.

Esta filosofia pode ser combinada com planear o dia, quantificar a profundidade de cada atividade, treinar a concentração e desligar o dia,

Planear o dia significa determinar quais são as tarefas que vou levar a cabo nos períodos “profundos”, dividindo o tempo em blocos. O objetivo não é seguir um plano rigoroso  mas sim obrigar a pensar no que faz mais sentido fazer com o tempo disponível no dia. Isto significa que é perfeitamente possível acomodar alterações durante o dia caso seja necessário. O importante é consciencializar o trabalho a fazer e não deixar ao mero acaso.

Para realizar o planeamento é necessário identificar quais são as atividades consideradas profundas ou supérfluas. O Cal Newport recomenda um abordagem bastante prática e simples, fazendo por cada atividade a seguinte pergunta: “Quantos meses demoraria a treinar um recém licenciado inteligente sem treino especializado na minha área para completar esta tarefa?”.

Se o recém licenciado hipotético necessitar de muitos meses para tratar da tarefa, então estamos perante trabalho profundo. Se forem poucos meses então a atividade deve ser considerada trabalho supérfluo.

Por forma a treinar a concentração, irei determinar períodos sem usar a Internet, recorrendo por exemplo, a um Tomato Timer, fazendo 25 minutos de trabalho focado seguido de 5 minutos de utilização da Internet para pesquisas, etc. obrigando-me assim a estar dedicado a atividades altamente produtivas.

Não usar a Internet implica ter o Skype, Slack e Whatsapp do portátil desligados, assim como desligar o wifi e os dados móveis do telemóvel.

Os dias devem terminar com atividades específicas para desligar das preocupações e problemas do trabalho e permitir que o cérebro descanse e esteja recuperado no dia a seguir – existem décadas de estudos psicológicos que apontam no sentido de que o descanso regular do cérebro melhora o trabalho profundo. Por isso é fundamental ser rigoroso e não trabalhar ou pensar em temas de trabalho a após o fim do dia.

A estratégia a seguir baseia-se no efeito Zeigarnik, que diz que o cérebro tem maior facilidade em se esquecer das tarefas completas do que das incompletas. Para isso o autor recomenda seguir um ritual em que é necessário rever cada tarefa, objetivo ou projeto incompleto para garantir que existe pelo menos uma de duas coisas:

  1. Um plano confiável para a sua completude
  2. Registo do tema em causa num local para ser revisto quando for a altura adequada

Relativamente à organização dos dias de trabalho, estando a iniciar-me no trabalho remoto, tenho maior flexibilidade para definir a organização a adotar – decidi utilizar dois padrões principais cada um com 6 horas de trabalho profundo e 2 horas de trabalho supérfluo: dia normal e dia de surf pela manhã.

Normal (4 a 5 dias na semana):

06h30 - 07h30 : trabalho supérfluo e planeamento do trabalho profundo
07h30 - 09h00 : pequeno-almoço, tratar da minha filha
09h00 - 12h00 : trabalho profundo
12h00 - 12h30 : trabalho supérfluo
12h30 - 13h30 : almoço
13h30 - 16h30 : trabalho profundo
16h30 - 17h00 : trabalho supérfluo
17h00 - 17h15 : desligar o dia

Surf pela Manhã (pontualmente):

06h00 - 07h30 : trabalho supérfluo e planeamento do trabalho profundo
07h30 - 09h00 : pequeno-almoço, tratar da minha filha
09h00 - 12h00 : surf
12h00 - 13h00 : almoço
13h00 - 19h00 : trabalho profundo
19h00 - 19h30 : trabalho supérfluo
19h30 - 19h45 : desligar o dia

Uma vez feito este plano, para garantir que o trabalho profundo é realizado, é fundamental executá-lo como se de um negócio se tratasse, usando uma adaptação que o Cal Newport fez das Quatro Disciplinas da Execução (4DX):

  • Disciplina 1 – Focar nos objetivos extremamente importantes
  • Disciplina 2 – Atuar nas medidas de orientação (do inglês, lead measures)
  • Disciplina 3 – Manter um quadro de pontuações
  • Disciplina 4 – Criar uma cadência de responsabilização

Focar nos objetivos extremamente importantes segue o racional de que quanto mais se tenta fazer, menos se consegue alcançar, principalmente se a quantidade de coisas para fazer for maior que a nossa capacidade de as tratar em simultâneo. Fazer muitas coisas ao mesmo muito aumenta a distração, reduz a concentração, damos menos atenção aos detalhes e comprometemos a qualidade do que estamos a fazer. A ideia é dizer “sim” às coisas que interessam ao invés de dizer “não” às coisas distrações triviais.

Uma vez identificados os objetivos mais importantes, é necessário medir se estamos a ter sucesso. Nas 4DX existem dois tipos de métricas para atingir este propósito: medidas objetivo (lag measures) e medidas de orientação (lead measures). As medidas de objetivo descrevem o que se está a tentar atingir, por exemplo, terminar um projeto no prazo de dois meses. O problema das medidas objetivo é que são demasiado tardias para alterar o comportamento: o que determinou o seu valor aconteceu no passado e já não é possível atuar. As medidas de orientação medem os comportamentos que determinam o sucesso nas medidas objetivo. Um exemplo deste tipo de medidas poderia ser a quantidade de funcionalidades implementadas por semana, que é um número que pode ser observado regularmente e que ao ser aumentado provavelmente vai fazer com que as medidas objetivo melhorem também.

Para uma pessoa focada no trabalho profundo a medida de orientação mais relevante é a quantidade de tempo dedicado em trabalho profundo para atingir os objetivos extremamente importantes.

Isto leva-nos à próxima disciplina, manter um quadro de pontuações, que se baseia no facto de as pessoas agirem de forma diferente quando têm que atingir uma meta quantificável. Por isso, sempre que se quer atingir um objetivo extremamente importante é fundamental ter um quadro sempre visível para observar e registar as medidas de orientação. Estes quadros de pontuação (scoreboards) criam um sentido de competição o que faz com que as pessoas estejam focadas nas medidas de orientação mesmo quando outros assuntos solicitam a sua atenção. Para além disso, estes quadros também melhoram a motivação – uma vez que as equipas notam o seu sucesso a partir das medidas de orientação, começam a investir em perpetuar a performance. O conceito é bastante semelhante ao utilizado pelas metodologias ágeis de desenvolvimento, como o SCRUM, que mantém um burndown chart e um velocity chart.

A criação de um quadro que indique a quantidade de tempo dedicado a trabalho profundo deve ser utilizado para ajudar a manter o foco. Apesar de ter planeado cerca de 6 horas por dia de trabalho profundo, vou manter um registo efetivo de quanto tempo estarei dedicado a trabalhar neste modo para me obrigar a executar como planeado. Concretamente, vou seguir a sugestão do Cal Newport, que mantém uma simples folha semanal em que regista a quantidade de horas dedicadas em trabalho profundo. Pedi à minha filha para me fazer uma quadricula usando uma folha A3, que fixei na parede num local sempre visível.

A última disciplina, criar uma cadência de responsabilização, tem como objetivo manter o foco nas medidas de orientação, executando reuniões regulares para acompanhar as medidas. Nessas reuniões os membros da equipa confrontam-se com o quadro de pontuações, comprometem-se com ações específicas para melhorar a sua pontuação antes da próxima reunião e descrevem o que aconteceu com os compromissos que assumiram na última. A ideia é semelhante aos daily meetings utilizados no SCRUM.

Para um indivíduo focado no trabalho profundo, mesmo não havendo equipa com quem reunir, não significa que não haja responsabilização. O Cal Newport recomenda a criação de um hábito de revisão semanal no qual se planeia a semana de trabalho, se celebra o que se atingiu, avalia o que correu menos bem e, principalmente, determina o que é necessário para assegurar uma boa pontuação nos dias que se seguem.


Tendo passado praticamente a última década em constante multitasking, a trabalhar em open spaces, a receber dezenas de e-mails por dia, a ter uma agenda cheia de reuniões e a ser distraído pelas notificações do telemóvel. Apesar do trabalho remoto criar um nível de isolamento praticamente impossível de alcançar num escritório tradicional, sem dúvida que vai ser um desafio aplicar as práticas do trabalho profundo. Todavia qualquer viagem começa com o primeiro passo. Este foi o meu.

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